VIAGEM PELA Química

A molécula invisível que nos agarra à estrada

Imagine uma viagem longa num dia quente de agosto. O asfalto ultrapassa facilmente os 50 graus. O carro acelera, trava, contorna curvas. Tudo parece simples. Mas entre o peso do veículo e a superfície da estrada há apenas quatro pequenos pontos de contacto – quatro pneus. E, neles, uma história química que começa muito antes de qualquer quilómetro percorrido.

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Um pneu moderno tem de cumprir exigências aparentemente contraditórias. Precisa de ser flexível para absorver as irregularidades do piso, mas resistente o suficiente para suportar toneladas de peso. Deve aderir ao asfalto, mas também resistir ao desgaste provocado pelo atrito constante.

Durante a sua vida útil, um pneu é comprimido, deformado e aquecido milhares de vezes por minuto. Cada quilómetro percorrido representa um teste à resistência do material, e essa capacidade não é acidental, é desenhada à escala molecular.

A indústria química permite ajustar propriedades como a elasticidade, a resistência ao desgaste, a estabilidade térmica e a durabilidade. E é neste processo que surge a anilina.

A molécula que inicia a história

Também conhecida como aminobenzeno ou fenilamina, a anilina é um composto orgânico da família das aminas primárias, com fórmula C6H5NH2. No seu estado puro apresenta-se como um líquido incolor e oleoso, produzido industrialmente por hidrogenação do nitrobenzeno. Pode parecer distante do nosso quotidiano, mas é a partir desta substância que começa uma cadeia química que está na origem de muitos materiais que usamos diariamente.

A história da anilina começa no século XIX e está ligada a um corante azul muito conhecido: o índigo. Foi ao estudar compostos derivados desse corante vegetal que, em 1826, o químico alemão Otto Unverdorben identificou pela primeira vez esta substância. Nos anos seguintes, outros investigadores perceberam que diferentes substâncias obtidas em experiências semelhantes correspondiam, afinal, à mesma molécula. Foi então que passou a ser conhecida como anilina, nome que deriva de “anil”, termo tradicional associado ao índigo.

Aquilo que começou por despertar interesse no mundo dos corantes revelou rapidamente um potencial muito maior. Com o desenvolvimento da indústria química, a anilina passou a ser utilizada como matéria-prima para produzir muitas outras substâncias essenciais em diversos setores industriais.

Da anilina aos materiais que usamos todos os dias

Uma das transformações mais importantes da anilina é a sua conversão numa substância chamada MDI (Metileno Difenil DiIsocianato), componente fundamental na produção de poliuretanos, uma família de materiais com inúmeras aplicações.

A partir dos poliuretanos fabricam-se, por exemplo, espumas de colchões e materiais de isolamento para edifícios e equipamentos de refrigeração. É também nesta cadeia que surgem materiais e componentes utilizados em vários elementos da indústria automóvel, incluindo volantes e aplicações ligadas à produção de pneus.

Ou seja, quando falamos de pneus, estamos já várias etapas depois da anilina. Mas sem ela, todo esse processo industrial não começaria.

Em Portugal, esta corrente química tem um protagonista de relevo: a Bondalti. A empresa é líder de vendas de anilina na Europa e um dos maiores produtores mundiais não integrados desta substância, fabricada com tecnologia própria e reconhecida internacionalmente pela qualidade. A partir da sua unidade industrial, que representa cerca de 3% da capacidade instalada mundial de produção de anilina, o composto segue para diferentes cadeias industriais, onde dará origem a componentes e materiais usados em inúmeros produtos do quotidiano, incluindo os que contribuem para a resistência e a durabilidade dos pneus.

Quando a química chega à estrada

Entre a molécula produzida numa instalação química e o pneu que roda no asfalto existem várias etapas industriais. Mas todas fazem parte da mesma cadeia de conhecimento e inovação.

Quando pensamos na segurança de um veículo, raramente consideramos a química. No entanto, os pneus são o único ponto de contacto entre o automóvel e a estrada. A fiabilidade desses poucos centímetros de borracha depende, em grande medida, de materiais desenvolvidos a partir de cadeias químicas complexas, que começam muito antes de qualquer viagem.

Os pneus modernos utilizam diferentes tipos de borracha sintética, com nomes estranhos, como borracha estireno-butadieno ou polibutadieno, desenvolvidos para otimizar a aderência e a resistência ao desgaste. Estas formulações dependem de uma indústria química capaz de fornecer intermediários e matérias-primas com propriedades rigorosamente controladas.

A contribuição da anilina é indireta, mas estrutural. Ao permitir a produção de MDI e, a partir daí, de materiais poliméricos aplicados na cadeia de fabrico, viabiliza soluções que aumentam a estabilidade, a resistência mecânica e a longevidade.

Da próxima vez que o seu carro travar a tempo numa estrada molhada, pense na ciência que está por detrás desse gesto aparentemente banal. Muito antes da chuva, do asfalto e da travagem, houve uma molécula transformada para aumentar a sua segurança na estrada.

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